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domingo, 3 de maio de 2009

TEXTOS DE UM ACASO - 11

Ele nunca tivera jeito para jardins,mas em certo troço do seu percurso não teve outro remédio senão tomar conta de um. O patrão não era muito exigente e na altura não lhe apareceu outra saída melhor. Lá se desembaraçou como pôde,apelando a habilidades um tanto escondidas. Valeu-lhe,também,a ajuda de alguns colaboradores,um dos quais parecia ter nascido para tal função.
Dava gosto ver o jardim,a ponto de o patrão lá levar,um dia,muita gente,que se desfez em elogios,à excepção de um má língua,que achou tudo aquilo já fora de moda,já ultrapassado. Enfim,ossos de qualquer ofício. O que é preciso é uma pessoa não se deixar abalar com as críticas e,se for caso disso,aproveitar delas alguma coisa.
Passado pouco tempo,ele viu a vida do jardim andar para trás. É que,quase sem aviso prévio,o patrão levou-lhe o auxiliar principal. E levou-lhe,pela simples razão de os jardins lhe terem subido à cabeça. Havia de arranjar um outro,em local mais apropriado,segundo o seu entender. E como daquela arte quase nada percebia,lá pensou que o melhor era ter a seu lado alguém para aquilo nascido.
Serviu este perda para ele fazer uma grande reforma no seu jardim. Não encontrou entraves de espécie nenhuma,pois o patrão pegara-se de amores com o novo,deixando-o à vontade. A coisa foi a tal ponto que acabou com a jardinagem. Para isso,deve ter cotribuído a tal crítica,de que nunca se esquecera,vindo de quem viera.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

TEXTOS DE UM ACASO - 10

O moço emudecia,volta não volta,preocupando os companheiros. A conversa como que esfriava. Não admirava,pois,que lhes desse para quererem saber do motivo daqueles silêncios,daqueles aparentes desinteresses. Não era nada,e por ali se ficava,ainda que os reparos mais o encasulassem.
Aquele estar devia ter uma causa,uma forte causa,uma causa não rara. É que o rapaz vivia atulhado em dificuldades. Tinha lá,pois,disposição para participar. Cansado andava ele de dialogar consigo mesmo,em tentativas de encontrar uma saída para a sua encrencada vida.
O que mais lhe apetecia era fugir,mas a isso estava impedido. Se acaso o fizesse,adeus minhas ricas encomendas. Seria o seu fim,um fim triste,irremediável. Não tinha outra solução senão ficar,acompanhar,mesmo que mais reparos viessem. Inventaria desculpas,para as quais imaginação não lhe faltava.
E ssim se manteve por largo tempo. Ao fim dele,pode aliviar-se,pode descontrair-se,não muito,o suficiente para que não houvesse lugar a estranhezas. A sua vida modificara-se de maneira a ser ele a poder notar os emudecimentos de outros

quinta-feira, 9 de abril de 2009

TEXTOS DE UM ACASO - 9

Fora um golpe de mestre. O moço só mais tarde se apercebeu. De princípio,fragilizado como andava,não estava em condições de ver claro. Até agradeceu a oferta,pois vinha-lhe resolver alguns problemas. A pouco e pouco,foi,porém,juntando peças. As tarefas de que o encarregaram podiam ter sido dispensadas ou proteladas. Parecia coisa para empatar,para entreter. Afinal,não valera muito a pena ter mudado.Não era ainda o trabalho que o deixava satisfeito. Mas não tinha outro remédio senão resignar-se,ter paciência,à espera de melhores dias.
Qual teria sido a motivação do chamamento? O que estava executando podia ter sido realizado por outros,que os havia,pois não requeria especial preparação. Portanto,não teria sido essa a causa. Um simples capricho de ocasião? Tratar-se-ia,talvez,também,de uma questão de simpatia. De início,ainda pensou nesse motivo,mas rapidamente o pôs de lado,pois o tratamento passou a ser tudo menos amistoso,em que se sucediam impertinências,asperezas,o que o levou,
até,a querer abandonar o barco,pois tal navegação não convinha a ninguém. Mas para onde,se não via outro por perto.
Porque se criara tal situação? Que teria feito, ou omitido,ou ignorado? Dava tratos o pobre moço à cabeça,mas não atinava com uma saída capaz. E assim permaneceu,pois da parte contrária não veio uma explicação,nem ela foi pedida. Deixou,simplesmente,de contar. E para ali ficou,como se não existisse. O que teria acontecido? Mais outro mistério insondável.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

TEXTOS DE UM ACASO - 7

Parecia que aqueles domínios eram do moço. E assim,logo que ficava livre,cumpridas algumas formalidades,lá ia ele,feito capaz,revistar todos os cantos. Era isso um claro sinal da estreiteza do seu viver,de horizontes acanhados. Diante daquela largueza,daquela riqueza,quase se julgava seu dono,ou fazendo parte da sociedade que a explorava.
Não havia buraco,pode dizer-se,que ele não esquadrinhasse meticulosamente. Mas, sem dúvida,era a horta,aquela grande e verdadeira horta,que mais o prendia,talvez por haver nela com que confeccionar muitas refeições.
Conhecia de cor todos os seus componentes,as noras,os tanques,as caleiras,os talhões,as árvores. Após um reconhecimento,como que a ver se estava tudo no seu sítio,escolhia uma sombra para uma observação envolvente,de senhorio total. Preferia um dos extremos,onde famílias de melros se recolhiam. Julgava-se no paraíso.
Por tudo isso,e ainda mais uns acrescentos,que não se podiam deitar fora,ficava consolado por uns tempos. Sabia,de antemão,que ao fim deles era lhe permitido repetir a dose. Sempre era uma compensação de vulto,coisa que muitos não teriam. Era,afinal,um moço cheio de sorte.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

TEXTOS DE UM ACASO - 6

Não era para acreditar. Podia lá ter acontecido o que ele estava para ali a dizer. A ser assim,fora mesmo o demónio,o demónio em pessoa, que o tentara. O diabo daquele cofre,que estivera ali,de bocarra bem aberta,a provocá-lo,de braços bem abertos.
Atrevera-se algumas vezes,que ele ,coitado,não tivera forças para resistir. Mas o seu anjo da guarda nunca o desamparara,colaborando como os anjos da guarda sabem fazer,na perfeição. Era um anjo que tinha muita pena dos rapazinhos pobres,indo ao ponto de lhes proporionar ocasiões isentas de perigos. Foi o que lhe valeu,se não teria sido apanhado com a boca na botija,o que seria uma grande vergonha.
Admirava-se ele como só muito tarde dera conta daqueles atrevimentos. Deviam ser das coisas que vão sucedendo apenas com o passar dos anos,vá-se lá saber porquê. Talvez necessitem de um tempo de amadurecimento,quem sabe? E,chegando a altura própria,lá desabrocham ou lá estão prontas para comer.
Quem o estivera a ouvir,pessoa muito compreensiva,desculpara-o de todo. O teu mal foi teres sido um menino carenciado. Deita as culpas à vida que te calhou. Para uns,ela é mãe extremosa,para outros,madrasta má,mesmo muito má.
Seria difícil,impossível até,esquecer-se. Marcara-o como que a fogo o que fizera,e não devia ter feito. E assim,volta não volta,sem aviso prévio,lá surgem espectros do passado,amargurando-lhe alma e corpo,deixando-o a sangrar. Razão tinha o amigo.Tivera muito azar em lhe ter calhado tal madrasta.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

TEXTOS DE UM ACASO - 5

A vida pregara-lhe grossa partida. Tivera um começo sem dificudades,mas com o casamento as coisas complicaram-se,dando mesmo para o torto. Nunca o teria imaginado. Mas quem poderia adivinhar,se nada,aparentemente,o indicava,antes o contrário? O marido não tivera culpa,coitado. São os azares da vida. Batem à porta,sem avisar,desencadeados por forças mais ou menos misteriosas,de que é impossivel escapar sem intervenção lá do alto. O que é preciso é uma pessoa resignar-se,e esperar por dias melhores. A seguir à borrasca vem a bonança,porque o diabo nem sempre está atrás da porta.
As coisas não melhoraram para ela,infelizmente,pois era merecedora de lhe ter cabido sorte risonha. Mas nunca perdera a esperança. Havia também a certeza de que uma vez por outra,por vias familiares,ser-lhe-ia permitido ter momentos largos com um algum cheirinho dos que tivera nos seus tempos de menina mimada. Não era a mesma coisa,claro,mas dava para recompor um pouco. Podia trazer-lhe isso alguma tristeza,porque lhe lembraria o que perdera. Se tal aconteceu,lá no íntimo,não se via,nem ela o diria. Vivia essas esporádicas ocasiões de fartura e despreocupação com naturalidade,tal como nunca as tivesse deixado.
A esperança transferiu-a ela para os filhos. Podia acontecer neles o que lhe coubera em menina e que se fora por uma fatalidade. Adquirira,talvez,a certeza de que seria esse o futuro,embora o não pudese viver.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

TEXTOS DE UM ACASO - 4

O acto chegara ao seu termo. Todos os bens,incluindo os da mulher,tinham ido na voragem. Ainda há bem pouco tempo o futuro lhe sorria,mas naquela altura,amarga altura,estava reduzido a nada. Não se contivera. Chorou lágrimas grossas,vindas dos fundos das entranhas. Ouviu-as o filho,uma criança aí de uns oito anos. Não as entendeu lá muito bem,no momento,mas ,mais tarde ,teve delas a real dimensão,vertendo-as,também,uma e mais vezes,que ocasiões não lhe faltaram.
Depois de uma maratona,que quase o arrasara,o filho recebeu dois prémios,cada qual o melhor,na forma de duas doenças graves,a dele próprio e a do pobre pai. Foi obrigado a esconder a sua,para acudir á outra,pois não havia mais ninguém de serviço. Sozinho,fazendo das tripas coração,acompanhou,dia a dia,a via sacra do pai,o costume,consultas,operação,internamento prolongado. Quase vacilou,mas lá cumpriu,mais morto que vivo,a sua missão. Pouco tempo,depois,encostou. Sozinho,sempre,a sua condição,lá se recompôs,mais ou menos,mas mais para o lado do menos,uma sorte,ainda,ou não,que podia lá ter ficado.
A mãe,coitada dela,lastimava-se,que mais não podia fazer,pois tinha lá também a sua carga,a sua conta,nada leve,como tantas,por esse mundo de contrastes gritantes,clamando aos céus,não se sabe bem porquê e para quê. O coração dela andava amarfanhado,dorido,muito dorido,como o de tantas mães,por esse mundo de interrogações e de interjeições. Merecia ela também um prémio. Entregaram-lhe,é certo,mas igualzinho ao calhado a muitas,um redondo nada. Tantas heroínas desconhecidas.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

TEXTOS DE UM ACASO - 3

A mãe resignara-se. Sabia que não tinha outro remédio. As crianças precisavam de praia,mas não lhas podia dar. O marido,coitado,dificilmente conseguia acudir às necessidades primárias. Muito coisa fazia ele já. Houve uma altura em que esta incapacidade a entristecia. Familiares e conhecidos mais abonados tinham essa possibilidade. Ouvia as narrações das temporadas de férias passadas junto ao mar. E ela,calada,sem poder também contar a sua experiência. Muito sofre uma pobre mãe.
Consolava-a a certeza de não estar sozinha na desdita. Quantas mães,a maioria,afinal,a acompanhavam nesse transe. Sempre a mesma vida,ao longo de anos,sem uma pausa,por pequena que fosse,a dar algum alento para o resto das duras caminhadas. Paciência. Que nunca faltasse o dinheiro para o essencial,a casa,o comer e o vestir. O pior eram as doenças. Felizmente que havia um médico amigo,de honorários simbólicos e de receituários modestos,em que,frequentemente,intervinham mezinhas caseiras. As mazelas também não passavam,geralmente,do trivial.
Tudo,porém, lá vai passando,umas vezes,melhor,outras,pior. O que é preciso é um pouco de imaginação para transformar pequenos nadas em grandes acontecimentos,satisfazendo-se com ninharias. De resto,o ontem já não existe e o amanhã,de que ninguém é dono,pode trazer muitas surpresas agradáveis.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

TEXTOS DE UM ACASO - 2

O moço não resistira. A doença do pai podia ter esperado mais um tempo,pois ele encontrava-se muito em baixo,mas elas são assim,acontecem,não têm data marcada. Tivera,há pouco, de travar uma dura batalha e estava sem forças. Ao contrário do que sucedeu,ser ele a acudir,precisava ele de ser amparado. Mas teve de ser,pois não havia mais ninguém disponível para o substituir. E foram semanas de grande expectativa e de grande desgaste. De constituição débil,claudicou. Depois do pai se ter recomposto,chegara a vez dele.
Sabia que não se podia queixar e assim teve ele próprio de tomar conta de si. O mal necessitava de repouso e de leite. Para isso,refugiou-se num quarto de pensão,já sua conhecida,que se prestou a ajudá-lo,neste transe.
Ele bem quis fazer tudo sem que o pai tivesse disto conhecimento,para o poupar a mais um desastre,mas,não se sabe como,o pobre velho acabou por descobrir. E foi visitá-lo.
Não queiram saber daquele encontro. O filho,ali estendido numa cama de pensão,a leite,longe da família. Mas com ela não estaria melhor.
O que aquele pobre velho deve ter sofrido. Era o filho em quem ele depositara as maiores esperanças, esperanças de uma vida melhor. E logo adoecera de um mal que lembrava o seu,e que presagiava um futuro nada bom para o filho e para ele. Deve ter ali concluído que daquele filho não podia esperar muito. Fora,afinal,uma carta errada em que jogara. Mas a isso já ele estava acostumado. A sua vida,afinal,não passara de uma sucessão de desaires,uma dura realidade,e não um sonho triste. Nascera com mau signo,à semelhança de muitos,sabe-se lá porquê.
Quando se despediu do filho,alguém ouviu o que ele disse à empregada que mais o acompanhava: ele é um bom rapaz. Como que a pedir-lhe que o tratasse bem, que ele merecia. Talvez tivesse querido recompensá-la,mas não estava em condições de o fazer.

domingo, 4 de janeiro de 2009

TEXTOS DE UM ACASO - I

Cortava o coração. O pai remexia,nervosamente,na carteira,com lágrimas caladas prestes a brotarem,e de lá tirou,a muito custo,uma nota pequenina. O filho aceitou,mas compreendeu que não devia mais bater àquela porta. Seria uma violência ou uma impiedade.
Que fazer? Olhou á sua volta angustiado. A quem recorrer? Por vergonha,ou por orgulho,tanto faz,não se dirigiu a algumas pessoas que lhe podiam dar a mão,ali perto. Foi para longe esmolar. Um estranho recolheu-o por uns dias e outro por uns anos. Felizmente que aparecem,às vezes,como por milagre,bons samaritanos.
A estrutura frágil das entranhas não suportou transe assim,quase se desmoronando. Fez apelo a energias escondidas e lá se recompôs um tanto. Ficou,porém,durante longo tempo,muito limitado nos gestos,parecendo que uma corda de cem nós o apertava;alguns foi desfazendo,com grande esforço,mas outros vieram substituí-los. Há vidas enredadas.
Como é de prever,não teve percurso pacífico. Entraves inesperados,porque ingénuo,surgiram-lhe a cada passo:pistas falsas,lobos encarniçados,armadilhas astuciosas,cascas de banana em sítios escolhidos,intrigas subtis,traições descaradas,mentiras clamorosas,invejas incontidas. Quase foi marginalizado. Pelo menos,assim o dava a entender o isolamento de grande parte da caminhada.
Nunca voltou,por tudo isto,a ser o mesmo dos tempos da juventude. A promessa não se concretizara. Lá dentro,bem no fundo,habitavam,também,marcas de feridas passadas,que doíam sempre,por vezes,muito. Cada um tem a sua cruz,como é uso dizer-se,talvez à sua medida,mas cruz pessoal,intransmissível.

UMA EXPLICAÇÃO

Os textos que ARG vai dar a conhecer requerem uma explicação. Vieram parar-lhe às mãos por um mero acaso. Foram encontrados, não numa farmácia,como A Família de Pascoal Duarte,de Camilo José Cela,mas num canto,algures por aí,já se não lembra o ARG onde.
Ao contrário,porém, do que atrás sucedeu,não sofreram qualquer alteração. Vão ser transcritos tal como estavam,sem tirar uma vírgula. Como não traziam título,mas apenas números,teve de se lhes arranjar,pelo menos,um. E assim,pareceu ao ARG,que TEXTOS DE UM ACASO,abrangendo-os a todos,não fica nada mal.