quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

OS OUTROS QUE ESPEREM

Já repararam nalgumas sumidades que por aí andam,ao pé da porta ou lá por longe,pavoneando-se como em parada triunfal,de recolher os aplausos? Devem ter reparado,porque elas fazem-se ao reparo,pondo-se ali mesmo bem na frente do vulgar peão,ocupando os pimeiros lugares das primeiras filas.E devem ter reparado no ar pomposo que exibem,nos olhares sobranceiros,de desprezo,de desdém,que se dignam lançar,na voz engrossada que soltam,uma voz doutorizada,no peito que salienta,quase a rebentar.É caso para perguntar. O que é que elas fizeram para bem das gentes,da humanidade,de ao pé da porta ou da que se encontra lá mais longe,para assim se mostrarem tão sublimes? Examinando,mesmo à lupa,não se nota coisa que o vulgar peão não soubesse fazer também.Quando muito,umas vagas intenções,umas promessas ôcas. O que se nota bem é o que fizeram por eles. Sim,é que,em primeiro lugar,estamos nós. Os outros que esperem.

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SAFA

Já se não viam há muito tempo,pelo que estiveram ali um bom bocado à conversa. Quase a terminar,um deles lembrou-se de uma notícia recente e de alto significado. Então,o que dizes do convite que fulano recebeu?Mal dissera o nome do convidado,o outro raspou-se logo,como se quisesse fugir a sete pés de algum perigosíssimo bicho,ou, quem sabe?,do mafarrico em pessoa. E quando o fez,soltou um safa com tal carga de repúdio,que deixou o companheiro meio atordoado,sem disposição para pedir um esclarecimento.É bem certo que santos da casa não fazem milagres. É bem certo que não há pessoas que valham para o seu criado de quarto. É bem certo que em certos cantos não é o mérito que conta. É bem certo que nos mesmos cantos não são as ideias,mas as pessoas que importa discutir. Coitado,é careca,um rente ao chão,veste mal,está sempre a tossir,não gosta de telenovelas,não vai ao futebol,... Não presta,em suma.Vá lá para onde o quiserem,que cá não faz falta. Faça-lhes bom proveito,a ele e a quem o convidou. Era o mínimo que se podia ouvir. Mas nem isso. Safa.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

UM SACO CHEIO

Era um pai que tinha quatro filhos. Na sua casa ,o vinho,o azeite,a carne,o pão e outras coisas de comer, davam para partilhar e vender. Acontecia que,de quando em vez,passava por lá um moço pobre,de quem a mulher tinha muita pena,pelo que nunca se esquecia,às despedidas,de lhe aviar um saco cheio.
O moço estudava. E os filhos daquele pai, não. O estudo rendia, e o moço,coitado,não resistia a mostrá-lo. Não se lhe podia levar a mal,pois não?,se era essa a sua única riqueza? Pois do que se havia,um dia,de lembrar aquele pai? Olha lá,tu não tens pena de ser tão feio?

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

MUITO QUIETINHO

A ser verdade o que o velho esteve para ali a contar,ele deve ter passado um muito mau bocado,em certo passo da sua vida. É que participou na criação de um posto médico. Os trabalhos,e aflições,que aquilo lhe deu,tanto mais que ele também tinha de estudar.Para começar,a escolha do esculápio. Estiveram vários interessados no anúncio que saiu nos jornais. A vida estava difícil,sabem. Um sarilho, que não há meio de se ir embora. Mas só um é que podia ficar,claro. A escolha parece ter sido acertada,pois entrou novo,e disse adeus quando já era quase um velhinho. Os outros é que não estiveram pelos ajustes.E choveram cartas,algumas de má catadura,até com ameaças disto e daquilo. Mais um sarilho,dos grandes. O moço não sabia onde se meter,e ele que tinha tanto para estudar. Felizmente que os preteridos tinham também a sua vida,pelo que se foram esquecendo,a pouco e pouco. Mas o caso esteve feio.Além do médico,houve as compras a fazer,marquesa,armário,mesa,cadeiras,primeiros socorros,coisas assim. Pois foi o moço que disso se encarregou. Podia ter nascido aqui outra encrenca,por não se ter feito concurso. Não lhe foi difícil,porém, esta tarefa,visto ter batido a uma porta de nome bem sonante,já muito batida nestes fornecimentos.Depois,para compor o ramalhete,uma pessoa muito importante não ficou nada satisfeita com o andamento da doença do filho. A constipação não havia meio de curar e a culpa era do médico. Quis levá-lo a tribunal.Outro sarilho,para o médico e para ele.Enfim,quando se viu livre daquela função,nem queria acreditar. Vá la uma pessoa querer ser útil. O melhor é ficar lá muito quietinho ,num canto muito escondido,de maneira a não darem por ele.

domingo, 3 de janeiro de 2010

TALVEZ CONFORMAR-SE

Estava em maré de se fazer ouvir. A inspiração visitara-o e à sua volta havia muitas orelhas ávidas de histórias da vida dos outros. Tratava-se de revelar alguns episódios da sua,dos tempos recentes. Coitado ,era para ter pena dele.A filha arranjara um rico marido. Trabalhar, não era com ele. Instalara-se lá em casa,com todas as armas e bagagens,fazendo vida de grande senhor. Não largava a cama,embalado por música de acordar os mortos. Os vizinhos protestavam,mas era o mesmo que nada. Ninguém o arrancava do fofo,e era o velho que se tinha de desembaraçar,se não tê-lo-ia à perna,que o menino não era para brincadeiras. Parecia ser ele o dono lá da casa e lá do bairro.Alguém,que ele bem conhecia,não estava ligando a esta história,talvez por já a saber de cor e ir ,também, com as suas preocupações. E interveio,avisando-o. Olha,vai-te mas é preparando,pois consta para aí que os passes sociais estão por um fio.Que me importa isso a mim?Tu sabes que eu tenho lá na terra uma casita e uns pedacinhos. Pois qualquer dia, mudo-me para lá. Livrava-me do genro e de outras coisas. Os que cá ficarem que se governem. Salve-se quem puder.Dali a uns dias, foi visto,de manhã,a carregar um pesado saco. Mudava-o,a cada passo,de mão, e a livre apoiava-se nas costas. Aquilo era demais. Ia de cabeça baixa,talvez a fazer projectos. Estaria farto e decidido a dar o salto. Afinal,não deu. Alguma coisa deve ter acontecido. Talvez conformar-se.

sábado, 2 de janeiro de 2010

A MINORIA VENCEU

O moço,naquela altura,já era engenheiro. A acrescentar a isto,exibia a fitinha de aspirante a oficial miliciano. Um dia,quem é que o diabo lhe havia de pôr mesmo ali à sua frente? Precisamente,uma antiga namorada,que,entretanto, se casara. Vinha ela com duas meninas,as suas filhas.Passaram a encontrar-se. A terra era pequena e o caso alimentava conversas. Ela,talvez deslumbrada com os atavios do moço,parecia estar disposta a voltar atrás. O marido era um modesto empregado de loja.Os colegas do moço,naturalmemte,também entraram nos mexericos,formando,a propósito,dois partidos. Um, apoiava o idílio,e o outro,em clara minoria,queria acabar com ele,e já.Esgrimiam-se razões. Um homem tinha de aproveitar,caso contrário,o que restaria dele? Porque era um homem,e dadas as circunstâncias,ele devia pôr ponto final. Ela era mãe. Ele estava abusando da sua "superioridade".O moço hesitava,via-se entre dois fogos. Finalmente,decidiu. A minoria venceu.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

MEDONHA ALGAZARRA

Coitada da velhota. Já lhe tinham voado os dentes e a voz era entaramelada. Vivia de biscates e colaborava na animação da terra. Neste entretém,tinha a ajuda de garotos. Estavam ela e eles combinados. Quando aquilo estava a caminhar para a pasmaceira,resolviam intervir. A coisa era
fácil,pelo que dispensavam-se ensaios.
Chamava-se Ana,simplesmente. Era,pelo menos,a este nome que ela acudia. Mas os miúdos completraram-no,ficando, para todo o sempre, Ana Balhana. Não foi uma coisa ao acaso,pois assim dava-lhes jeito para comporem uns versos. E era numa medonha algazarra,atrás dela,que os recitavam. As correrias que a boa da velhota fazia para simular agarrar um deles. No contrato,
figurava a impunidade.