quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

UMA AJUDINHA

Era uma terra nem pequena,nem grande,uma terra asim assim,que ficava lá para o cabo do mundo,mas com comboio à porta. Nessa terra,havia três pessoas importantes,o comerciante João,o médico e o engenheiro.O senhor João ia,uma vez por outra, à capital,para se actualizar. Aquilo era um contar de novidades de estarrecer,no café central,à noite,depois dos trabalhos. Certa vez,o senhor João contou também uma aventura. Oh senhor João,se a sua mulher calha a saber,coitada dela? Não tem dúvida. Ela sabe muito bem que é só dela que eu gosto,ela está sempre em primeiro lugar.O médico não tinha mãos a medir,mas não na sua profissão. Como a gente lá da terra raramente estava doente e ele não era de se encostar às paredes,arranjara outros interesses. Ele era agente disto e daquilo,era era agricultor,ele era,acima de tudo,mecânico de viaturas. A terra era ponto obrigatório de passagem de tractores e de camionetas,que,frequentemente,tinham as suas mazelas,a necessitar de tratamento. E o médico intervinha,a dar uma ajudinha. Chegava a estender-se no chão,a examinar eixos e cambotas,ficando numa lástima.O engenheiro era o responsável de uma grande obra. Por tal motivo e por estar muito interessado em encarecer o seu complexo trabalho,era ele que pontificava. A grande obra iria custar metade do que estava previsto. É que ele sabia poupar. Hoje meti nos cofres da empresa um dinheirão,era a sua expressão favorita. Quem eram os ouvintes para daquilo duvidar? Mas parecia haver ali economias a mais,alguém teria feito mal as contas.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

UMA SEMENTINHA

Uma vida humana desperdiçada em frivolidades,em ociosidade,é coisa muito,muito triste. As capacidades que em cada um moram,capacidades de mais valias,para usar uma expressão domingueira,à espera de serem aproveitadas. E é ainda mais triste quando se teve a sorte,ou o que se quiser chamar,de arranjar uma enxada,que muito poucos conseguem,a enxada da instrução. Naturalmente, a vida não é só trabalhar,como diria o senhor Francisco,pintor de tectos e de paredes. Mas o não trabalhar não deve assumir a prioridade. Fica mal,não é bonito.Tantas maneiras há de trabalhar,mesmo até não parecendo. Pensar nos outros,nas suas dificuldades,um modo simples de o fazer,sem gastos aparentes. Mas é muito triste gastar uma vida em questiúnculas,em malquerenças,em desencontros,em apagões,para não empregar termos mais violentos,que não é bom lembrar. Metem medo. Uma sementinha gasta-se,mas deixa uma ervinha,um arbusto,uma árvore ,que pode ser uma árvore gigante . Uma vida humana devia emitá-la. Seria bom que o fizesse.

sábado, 28 de novembro de 2009

MAIS QUE FAZER

O rei não ia nu,antes pelo contrário,mas ia só. Parecia isso uma grande ousadia,pois era sabido que muitos perigos o espreitavam. E a rua que ele descia estaria cheia deles. Tratava-se,de facto,de uma vereda muito apertada,quase imitando um desfiladeiro,de passeios miniaturais.Não admiraria,assim,que os serviços competentes ,muito previamente,tudo tivessem feito para garantir a segurança de sua majestade. A rua estaria vigiadíssima,só que não se notava à vista desarmada. Foi o que constatou um velho,que,por um muito mero acaso,se viu a caminhar atrás do rei. Olha,mas é o rei,e não leva séquito. Donde virá ele e para onde irá?Rapidamente ficou tudo esclarecido. É que,atentando melhor,deu conta de grande festa ali mesmo a dois passos. Estar-se-ia fazendo tarde e outra festa o esperaria,que os reis precisam de se distrair.Talvez sem dizer água-vai,o que não seria de estranhar,ele ali ia muito serenamente,sem olhar para trás,nem para os lados,que ele saberia estar bem guardado,para a sua carruagem,estacionada uns cem metros abaixo,numa meia-laranja,muito conveniente em garganta como aquela.Porque o velho aparentava não fazer mal a uma mosca,não fora incomodado na sua digressão ocasional. O mesmo aconteceu a um casalinho, entretido nos seus amores. Nem deram conta do velho,nem do rei. Tinham mais que fazer.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

A ESTAÇÃO DO ENTRONCAMENTO

Era no verão,por altura dos Santos Populares. Seria bom que o povo tomasse contacto com a arte. E vai daí,fizeram uma exposição ao ar livre,num recinto convidativo,com árvores,com canteiros,num jardim. A um canto,arte abstracta,noutro canto,afastado,arte figurativa.E aconteceu,com frequência,o que era de esperar. Olhem para aquilo. Isto também eu pintava. Borradas,é o que tal coisa é. O meu filho,que anda na escola primária,podia ter aqui os seus desenhos. São muito melhores do que todos estes. Não têm jeito para fazer quadros que a gente entenda,depois,é o que se vê. Tanto tempo,tanta tinta,para sairem coisas destas. Olha a estação do Entroncamento. Era uma tela de grandes dimensões. Até parece que estamos lá. O homem sabe disto. E empurravam-se,todos queriam ficar bem ao pé,para não perderem nada. Sim senhor,isto é que arte. Pensam que a gente não consegue distinguir,mas estão muito enganados. Vejam lá como está tudo no seu lugar. O homem sabe do ofício. As plataformas,os comboios,os passageiros,os vendedores de pevides e de tremoços. E as cores?,cores de um rico dia de sol. Este comprava eu,se tivesse dinheiro. Ficava bem lá na sala. Agora, os outros,lá de trás,nem dados. Que diriam os parentes e os amigos se os vissem lá na sala? Que estávamos malucos de todo.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

CONTRASTE

O contraste era evidente. Ele,alto,para o forte,com mais de quarenta. Ela,baixinha,um tanto gorda,à roda dos vinte. Podiam ser pai e filha. Ela entrou e ficou encostada à janela,de pé. Ele aproximou-se,do lado de fora,e teve de se inclinar para se beijarem. Tinha serviço na segunda-feira,não sabia se no Algarve ou no Norte. Depois,digo-te. É que podíamos ir os dois. Arranjavas um pretexto,mas temos tempo.O contraste ganhava novas dimensões. O comportamento dele não condizia com o dela. Ele,bem disposto,descontraído,falando alto. Ela,acanhada,falando baixo.O comboio afastou-os. Quando saiu,ia de cabeça a olhar o chão,ao peso não se sabe de quê. Quase a correr,foi comprar tabaco. Talvez o fumar a levasse a cozinhar uma desculpa para a longa ausência. Que inventaria nas ocasiões seguintes? A cabeça,pequena para corpo tão avantajado,manteve-se sempre inclinada,enquanto esteve ali à vista.

sábado, 17 de outubro de 2009

UM GRANDE SARILHO

Estava casado há já quarenta e quatro anos,que se completavam precisamente naquele dia. E ele,mais uma vez,se esquecera. Fora a nora que o lembrara. Mas ainda ia a tempo de comprar um ramo de flores para oferecer à sua velha companheira.
Mas como não me havia de esquecer,se ando para aqui atafulhado de preocupações? A casa,sempre a mesma,precisou de obras urgentes e fui eu quem as teve de pagar. Foi um grande rombo,como deve calcular. Depois,o meu filho,que tem um curso superior,ganha uma miséria. É a mulher que o tem de ajudar,porque eu pouco posso. Ela é professora e anda a ver se arranja colocação,mas o horário que lhe dão não serve,por causa da criança. Vai ter que esgravatar por outro lado. Tem de ser.
Enfim,um grande sarilho,como vê. É sempre a mesma coisa. Estão os pobres cada vez mais pobres,sentenciou,e lá foi,a correr,comprar um ramo de flores no supermercado,lá ao pé da porta.

sábado, 3 de outubro de 2009

TUDO DE BORLA

Aquela paisagem,novíssima para ele,encantara-o,seduzira-o. Não sabia para onde se virar,pois em muitos quadros ela se desdobrava,todos de ficar a eles preso.Era o amplo vale que a seus pés se abria. Era o vagaroso rio,a serpentear,que mansamente o cortava. Era a galeria de palmeiras e bananeiras que o alegrava.As bananeiras cresciam ao Deus-dará,com os pés-mães e os filhotes criando densas cortinas. As palmeiras,esguias,procuravam o céu. Eram os palácios de mergulhões,que não desejariam outro poleiro,pois, além de quartos,tinham mesa e roupa lavada,tudo de borla.Podia dizer-se que o vale era verde. Até o rio verde era,de reflexos e de constituição. Havia ainda um outro verde,um verde mais carregado,de outras palmeiras,não tão elegantes,ordenadas,muito apaparicadas. Eram nelas que os exímios trepeiros mostravam as suas habilidades,quando os cachos estavam a pedir que os fossem lá colher.A noite caía quase a pique. E o verde passava a tons violáceos,tudo muito a correr,que era urgente ir descansar.Era nesta altura que os embondeiros,que o punham especado,muito respeitador e um tanto temeroso,na sua frente,pareciam fantasmas de muitos braços. E os seus frutos,de pedúnculos compridos,lembravam ratazanas que eles usariam para mais amedrontar.Mas mal o sol acordava,de novo o vale se pintava de verde,de um verde mais verde. E os fantasmas e as ratazanas iam dormir.