terça-feira, 7 de outubro de 2008

PELOS CAMPOS


...
Conhecem talvez o pilriteiro? É um arbusto dos valados,peculiar às regiões montanhosas do Alentejo,que se defende com os espinhos de que se arma e não gosta de habitar jardins. Transplantado,não produz flor. Tem uma folhagem pequena,curta,verde retinto,mui recortada nos bordos,e agora,na Primavera,esbracejando sobre as barreiras,tolda os pegos com caramanchéis duma vaporosidade incomparável. A sua flor é o que há de mais mimoso,mais pequenino,mais aéreo:uma joiazinha coquete,que antes diríeis insecto,pela vivacidade e esbelteza da figura. Qualquer ramito conta por milhares as florações e dá em pleno país do sol a fresca sensação duma neve caída em flocos sobre cada proeminência da haste. Quantas vezes,folheando Madame Chrysanthème,que Myrhach e Claudius Popelin vêm de ilustrar ,eu pensei nesta esquecida floração do pilriteiro,que não figura nos álbuns,nem inspira os desenhistas,e todavia resume ,na sua pureza,o que de mais belo possa haver,como motivo ornamental,para a ilustração de livros e jornais!

FIALHO DE ALMEIDA
O País das Uvas
Círculo de Leitores
1981
Imagem da Wikipédia

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

A SUA VIDA

Chapas metálicas volteavam no céu como simples papéis arrastados pela ventania. Lá tinha ficado sem cobertura a bancada do campo de futebol. Muitos telhados não resistiram,seguindo o exemplo de muitas chaminés. As árvores despiram-se de folhas e de ramos e muitas tiveram de mostrar as raízes. O ciclone,na sua fúria,quase desmoronou o grande jardim,a sala de visitas lá da terra.
Por essa altura,um pai de família,angustiado, fizera-se ao caminho,única forma de chegar onde se queria ir. Dias antes,deixara em casa mulher e filhos pequenos. Era o costume,era a sua vida.
Como estariam? Onde se encontrará o pai? Como estará ele? Devem ter rezado para que estivessem bem. Foram longas horas de angústia,naturalmente.
Teria muito para contar este pai quando a casa chegou. Mas pouco contou. Um inferno aquela estrada. Vira tombar árvores,vira outras lutando para se manter de pé,que as árvores gostam de morrer assim. Fora uma sorte não ter ficado lá.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

OS "VELHOS" MOINHOS

Do Flickr,by jo campos
Do Flickr,by jo campos

Do Flickr,by jo campos


Do Flickr,by jo campos



Do Flickr,by jo campos




Do Flickr,by jo campos





Do Flickr,by Howard






Do Flickr,by Portuguese_eyes







Do Flickr,by Portuguese_eyes








Do Flickr,by roman-man









Do Flickr,by roman-man










Do Flickr,by vida de vidro











quinta-feira, 2 de outubro de 2008

SEIS QUADRAS DE ANTÓNIO ALEIXO

Vai subindo lentamente,
só assim serás alguém,
que quem sobe de repente
raramente sobe bem.

Tu não vais à procissão
p'ra rezar à Virgem-Mãe,
vais p'ra aqueles que lá vão
verem que tu vais também.

Que o mundo está mal,dizemos,
e vai de mal a pior;
e,afinal,nada fazemos
p'ra que ele seja melhor.

Talvez paz no mundo houvesse,
embora tal não pareça,
se o coração não estivesse
tão distante da cabeça.

É tão engraçada a vida...
sem que a gente a veja assim,
volta ao ponto da partida,
quando está perto do fim.

Gosto de apertar a mão
àspera dos calos que tem;
também as côdeas de pão
são ásperas,mas sabem bem.

ANTÓNIO ALEIXO

ESTE LIVRO QUE VOS DEIXO...
Sétima Edição
Loulé 1983

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

TOADA DE PORTALEGRE

...
E era então que sucedia
Que em Portalegre,cidade
Do Alto Alentejo,cercada
De serras,ventos,penhascos,oliveiras e sobreiros,
Aos pés lá da casa velha
Cheia de maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue,mas viva,obsediante memória,
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos ,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
- A minha acácia crescia.

Vento soão!,obrigado
Pela doce companhia
Que em teu hálito empestado,
Sem eu sonhar,me chegava!
E a cada raminho novo
Que a tenra acácia deitava,
Será loucura!...,mas era
Uma alegria
Na longa e negra apatia
Daquela miséria extrema
Em que eu vivia,
E vivera,
Como se fizera um poema,
Ou se um filho me nascera.

JOSÉ RÉGIO

Antologia Poética
edições quasi 1ªEdição,Setembro 2005

VONTADE

O rapaz prometia,assim lhes tinha dito o mestre-escola lá da aldeia. O que é que os pais haviam de fazer? Pois se o filho podia vir a ser mais do que eles ,então era pôr mãos à obra.
O comboio passava-lhe mesmo ali ao pé da porta. Era só levantar de madrugada e ir apanhá-lo. Muita gente acordava com as estrelas para ir para as fazendas ou para as fábricas. Ele ia para o liceu. Sempre parecia ser melhor. A viagem era de graça por o pai trabalhar na Companhia. O almoço e a merenda iam na cesta. Apenas ele tinha de estudar. E aqui residia a dificuldade.
Cada professor supunha ser a sua disciplina a mais importante,pelo que a matéria a decorar ou a compreeeder formava uma montanha, As viagens eram também longas e barulhentas. Chegava a dormir ns aulas,coitado. Mas a vontade era muita. As notas nunca andaram lá muito por cima,mas chegaram para não ficar para trás. Se tivesse tido vida folgada,outro galo teria cantado.
Mas não foi caso único naquela altura. Os irmãos trabalhavam no campo,à jorna. Parecia ser este igualmente o seu destino. Estava escrito,porém,que não seria assim. Alguém resolveu investir nele,tinha o moço já quinze anos. Isso não o perturbou. Em três anos fez os sete da conta. Também lhe vinha de casa o farnel,que ele ia buscar todos os sábados a um sítio certo.
Muito custa a vida para alguns,sobretudo quando se metem em cavalarias altas.

BARRAGEM DE PÓVOA E MEADAS,NOSSA SENHORA DA GRAÇA DA PÓVOA E MEADAS,CASTELO DE VIDE - PORTUGAL




"4. À antiga vila de Póvoa e Meadas (12 km.),formada no séc. XVIII,pela união de duas aldeias. O seu primitivo nome foi o de Póvoa de S.Martinho.Foral de D. Manuel em 1511."

RAÚL PROENÇa
Guia de Portugal 2 º Volume
Biblioteca Nacional de Lisboa
1927

A barragem,na ribeira de Nisa,da iniciativa da Hidro-Eléctrica do Alto Alentejo,foi inaugurada em 1927. Situa-se a Noroeste de Castelo de Vide,a cerca de 11 km.

Da Web- Câmara Municipal de Castelo de Vide


Imagens de Armando Gaspar,do Blogue OLHARES DA NATUREZA